No mundo do retalho e das marcas próprias, a fronteira entre inspiração e cópia nem sempre é clara. Recentemente, um conhecido retalhista lançou uma versão própria de um chocolate premium, com um design e conceito semelhantes ao de uma marca líder. Este tipo de estratégia é comum no setor e levanta questões sobre os limites entre inspiração e imitação.

As marcas próprias foram, durante muito tempo, vistas como alternativas de menor custo e qualidade inferior. No entanto, nos últimos anos, a sua evolução tem sido significativa, tornando-se uma verdadeira força competitiva. Atualmente, muitas dessas marcas são sinónimo de qualidade e inovação, conquistando um público fiel e até superando algumas marcas tradicionais em determinados segmentos.

 

O Jogo das Semelhanças: Estratégia ou Coincidência?

A semelhança entre produtos de private label e as versões originais das marcas líderes é, na maioria dos casos, uma estratégia deliberada. O objetivo é claro: captar consumidores que já conhecem e confiam no produto líder, oferecendo uma alternativa com um posicionamento de preço mais acessível. A utilização de um design semelhante facilita o reconhecimento imediato no linear, levando à conversão de compra quase automática.

No entanto, esta prática tem os seus riscos. Quando a semelhança ultrapassa certos limites, abre-se a possibilidade de litígios. Já houve casos em que grandes marcas processaram retalhistas por alegada concorrência desleal, alegando que as suas private labels replicavam não apenas o conceito do produto, mas também elementos protegidos, como design, embalagens e até nomenclaturas.

 

Como as Marcas Líderes Podem Responder?

Diante deste cenário, as marcas líderes adotam diferentes estratégias para manter a sua vantagem competitiva:

  • Inovação constante – Criar versões premium, edições limitadas e novos sabores ou formatos pode ser uma forma de manter o consumidor interessado e afastar a perceção de banalização do produto.
  • Proteção da identidade visual – Algumas marcas registam elementos do design da embalagem para evitar que sejam replicados de forma idêntica.
  • Diferenciação emocional – Enquanto o preço pode ser um fator decisivo na escolha de uma private label, a conexão emocional com a marca original ainda é um elemento diferenciador para a fidelização do cliente.

As Private Labels Devem Apenas Replicar?

Se, no passado, muitas marcas próprias se limitavam a reproduzir os sucessos das marcas líderes, hoje, as que mais se destacam vão além da simples cópia. Algumas estratégias têm fortalecido a autoridade das private labels, tornando-as referências no mercado:

  • Desenvolvimento de produtos exclusivos, que não existiam antes na categoria, agregando valor ao portfólio do retalhista.
  • Criação de uma identidade visual própria, que permita o reconhecimento independente do produto, sem depender da comparação direta com a marca líder.
  • Construção de uma proposta de valor diferenciada, indo além do fator preço e incorporando benefícios como qualidade superior, sustentabilidade ou características inovadoras.

Atualmente, algumas private labels já desfrutam de maior lealdade por parte dos consumidores do que muitas marcas tradicionais. Este fenómeno demonstra que o caminho para o sucesso não está apenas na inspiração, mas na capacidade de oferecer algo verdadeiramente distinto.

O equilíbrio entre inspiração e diferenciação continua a ser um desafio estratégico para o setor. Cabe às marcas – sejam líderes ou private labels – encontrarem formas de se destacarem sem recorrerem a práticas que possam comprometer a concorrência justa e saudável.

Paula Sofia Ribeiro